Eu era contra programar com IA. Acho que demorei demais
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Durante muito tempo torci o nariz pra essa onda. Achava que era preguiça disfarçada de inovação. Uma forma bonita de pedir código pra uma ferramenta, copiar, colar no projeto e fingir que aquilo era engenharia de software.
Ainda acho que esse risco existe. Usar IA sem entender o que está sendo feito é problemático. Aceitar código sem revisar, sem testar, sem conseguir explicar o que mudou, é uma receita elegante pra criar dívida técnica com maquiagem futurista.
Mas minha visão mudou depois que comecei a usar essas ferramentas de verdade, não como muleta, mas como parte do processo.
Aí lembrei de algumas coisas dos meus primeiros empregos, há mais de 20 anos.
Trabalhei com caras que programavam sem Google, sem Stack Overflow, sem autocomplete, sem documentação decente aberta em outra aba. Eu ouvia aquilo e pensava: “que vida de merda deve ter sido essa.” Com todo respeito.
Só que esses caras eram bons. A limitação da ferramenta não os tornava melhores automaticamente, sofrimento técnico por si só não é virtude, mas também não os impedia de ser excelentes. Eles sabiam pensar, investigar problema, depurar comportamento estranho. A ferramenta era pior, mas o cérebro estava ligado.
Hoje vejo a mesma reação em quem olha pra desenvolvedores usando IA: “isso não é programar de verdade.” Entendo, porque eu mesmo pensei assim. Só que quando saímos do terminal puro pra IDEs, quando apareceu autocomplete, quando a galera parou de decorar tudo e foi pesquisar no Google, alguém disse a mesma coisa. O nome muda, o padrão é o mesmo.
O problema nunca foi a ferramenta. É parar de pensar.
Desenvolvimento com IA mal feito é terceirizar o raciocínio. É aceitar código que você não entende, abrir pull request sem conseguir explicar o que mudou, jogar complexidade pra dentro do sistema e deixar a bomba pro próximo. Isso não é produtividade, é irresponsabilidade técnica com interface moderna.
Desenvolvimento com IA bem feito é diferente. Você sabe o que quer construir, usa a ferramenta pra acelerar partes do processo, gera rascunho, compara abordagens, cria testes, refatora mais rápido. Mas no final você revisa, testa, ajusta, entende e assume responsabilidade. Porque quem faz o commit é você. E o commit não mente. IA pode acelerar bons desenvolvedores e mascarar os ruins. Um bom desenvolvedor usando IA consegue revisar melhor, questionar a saída, identificar incoerências. Um desenvolvedor fraco usando IA produz mais código ruim em menos tempo. Esse é o risco real, não a IA escrever código, mas código sem entendimento chegar mais rápido ao repositório.
A pergunta não deveria ser “usar IA é programar de verdade?” A pergunta é: você entende o que está entregando? Você pode escrever tudo manualmente e produzir lixo. Pode usar IA e entregar algo bem pensado, testado e sustentável. A ferramenta não absolve ninguém.
Eu era contra. Hoje acho que demorei demais pra levar isso a sério. Quem pensa, lidera a ferramenta. Quem só copia, é liderado por ela.
Postei um vídeo em meu canal do youtube falando sobre esse assunto.