A frase na parede do dojo
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Em 1989 eu treinava karatê Shotokan na Academia Meikyo, na QI 7 do Guará I, em Brasília.
Eu tinha 10 anos.
Não lembro mais o nome do professor. Também não lembro o nome da professora, uma mulher negra, talentosa pra caramba, com um kimono tão branco que parecia brilhar. Isso me incomoda até hoje. Tem gente que passa pela nossa vida por pouco tempo e deixa uma imagem tão forte que continua existindo dentro da gente décadas depois.
Da Meikyo eu lembro de algumas coisas. O cheiro do tatame. O kimono. A faixa. A sensação de sair da faixa branca e receber a amarela. Pra uma criança, aquilo era quase uma condecoração militar.
Mas uma coisa ficou gravada de um jeito diferente.
Na parede da academia havia uma frase:
Mais valem as lágrimas da derrota do que a vergonha de não ter lutado.
Nunca esqueci.
Na época eu não tinha maturidade pra entender tudo que tinha ali. Achava bonito, forte, coisa de karatê. Mas frase assim entra na cabeça de criança e fica rodando por baixo, feito programa residente na memória.
Anos depois, lá por 2007 ou 2008, eu estava dando aula de Java na escola X25, também em Brasília.
Tinha uma turma difícil. Não digo difícil no sentido de gente ruim. Era difícil porque o conteúdo não entrava fácil mesmo. Java, orientação a objetos, sintaxe, lógica, prova chegando. Quem já deu aula sabe: tem turma que anda sozinha e tem turma que você tem que empurrar morro acima.
Chegou a hora de aplicar a prova.
Eu avisei:
“Pessoal, próxima aula vai ser prova.”
A reação foi imediata. Começaram a reclamar. Disseram que não iam aparecer, que era melhor faltar e reprovar logo do que fazer a prova e reprovar do mesmo jeito. A sala entrou naquele espírito de derrota antes da luta. O pior tipo de derrota.
Aí a frase saiu da minha boca sem eu planejar muito:
“Que é isso, pessoal? Vamos lá. Mais valem as lágrimas da derrota do que a vergonha de não ter lutado.”
A sala ficou quieta. Foi um silêncio diferente, não daquele de aluno esperando o professor terminar o sermão. Parecia que a frase tinha acertado alguma coisa.
Um aluno, mais velho que eu, olhou pra mim e falou:
“Karate Meikyo, Guará 1, né professor?”
Na hora eu entendi.
“É isso aí. Você também é de lá?”
Ele disse que sim.
E eu respondi:
“E você ainda vai desistir da prova?”
Ficou calado um instante. Depois disse que não.
No fim, todo mundo fez a prova. E todo mundo passou.
Essa história ficou comigo porque mostra como certas coisas atravessam o tempo de um jeito esquisito. Uma frase escrita na parede de uma academia de karatê em 1989 apareceu quase vinte anos depois numa sala de aula de Java. E apareceu na hora certa.
Não era frase de coach de LinkedIn. Não prometia vitória, não dizia que todo esforço seria recompensado, não dizia que bastava querer. Dizia uma coisa mais seca: você pode perder, mas não foge da luta. E isso importa mais do que ganhar.
Derrota dói, mas passa. Vergonha de não ter tentado fica. Vira desculpa, depois vira hábito.
Naquele dia a turma não precisava de uma explicação melhor sobre Java. Precisava parar de fugir, sentar na cadeira e lutar com o que tinha.
Às vezes educação é isso. Não é transformar ninguém em gênio nem fazer mágica. É não deixar a pessoa desistir antes da primeira tentativa.
Nunca mais encontrei aquele aluno. Também nunca mais vi a Academia Meikyo. Não sei o nome do professor, não sei o nome daquela professora de kimono branco impecável. Talvez um dia eu ainda descubra.
Mas a frase ficou.
E, de algum jeito, continuou dando aula comigo muitos anos depois.