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O circo que eu nunca vi

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Eu devia ter cinco ou seis anos de idade.

Estudava no Colégio Estadual Tomaz Edison Andrade Vieira, no bairro Borba Gato, em Maringá, Paraná.

Ao lado da escola havia um terreno baldio grande. Um dia apareceu um circo ali.

Naquela época, quando um circo chegava, era um acontecimento. As crianças comentavam durante as aulas, no recreio e na saída da escola. Diziam que havia animais, palhaços e atrações que eu nunca tinha visto.

Meu pai não tinha dinheiro para me levar.

Lembro de ouvir os outros alunos falando de uma lhama que cuspia nas pessoas. Quase todo mundo tinha ido ao circo.

Menos eu.

Alguns dias depois, o circo foi embora.

As lonas desapareceram. Os caminhões desapareceram. Os artistas desapareceram. Os animais desapareceram.

Sobrou apenas o terreno vazio.

Num dia de recreio, passei pela cerca da escola e fui até lá.

O que encontrei não foi um circo.

Foram os rastros dele.

Marcas no chão. Áreas onde alguma coisa pesada havia ficado estacionada. Pegadas. E principalmente pequenas bolinhas de esterco deixadas pelos animais.

Fiquei andando por aquele terreno tentando imaginar o que tinha acontecido ali.

Aqui devia ficar a lona principal.

Ali talvez estivesse algum cercado.

Algum animal passou por aqui.

Alguém esteve aqui.

Começou a chover.

Eu continuei andando.

A chuva aumentou.

Eu continuei andando.

Perdi completamente a noção do tempo.

Quando finalmente percebi, o recreio já tinha acabado fazia muito tempo.

Voltei para a escola encharcado.

A professora não compartilhou do meu entusiasmo arqueológico.

Fui parar na diretoria e levei uma bronca.

Mas nunca esqueci aquele dia.

O curioso é que eu não me lembro do circo.

Não me lembro do nome.

Não me lembro dos artistas.

Não me lembro das atrações.

Não me lembro da música.

O que ficou gravado na minha memória foi o terreno vazio depois que tudo acabou.

Anos atrás escrevi sobre os lugares onde nunca mais voltei. Lugares que desapareceram da minha vida, mas continuaram existindo em algum canto da memória. Talvez este terreno faça parte da mesma lista.

A diferença é que, naquele dia, eu não estava visitando um lugar abandonado.

Eu estava chegando logo depois que ele deixou de existir.

Quarenta anos depois, talvez eu finalmente entenda o motivo de essa lembrança ter sobrevivido.

Enquanto outras crianças queriam ver o espetáculo, eu fiquei fascinado pelos vestígios.

O circo tinha ido embora.

Eu estava interessado no que ele deixou para trás.