Quando a rádio escolhia por você
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Agora há pouco começou a tocar Even Flow. Na hora fui parar em 1994.
Naquela época eu passava boa parte das madrugadas conectado em BBS. Computador ligado, modem fazendo barulho, a Transamérica FM tocando no fundo, e eu esperando alguma coisa interessante acontecer.
Hoje qualquer pessoa abre o Spotify, digita “90’s Grunge” e em poucos segundos já tem Pearl Jam, Soundgarden, Nirvana, Alice in Chains, tudo ali. Em 1994 não tinha isso. Você dependia da rádio.
Quando começava Even Flow era quase um presente. “Caralho, essa eu gosto.” A música acabava e pronto, não tinha botão de repetir, não tinha playlist, nem algoritmo tentando adivinhar seu gosto. A rádio simplesmente seguia em frente. Às vezes tocava outra música que eu já conhecia, às vezes aparecia uma banda que eu nunca tinha ouvido falar. Foi assim que conheci boa parte do que eu escuto até hoje.
O curioso é que agora eu tenho acesso a praticamente qualquer música já gravada. Posso ouvir exatamente o que eu quiser, na hora que eu quiser. Mesmo assim tenho a impressão de que descobria mais coisa quando não tinha controle nenhum sobre o que ia tocar.
Acho que tem a ver com uma coisa que algoritmo nenhum reproduz direito: o acaso. Foi o acaso que colocou Black Hole Sun logo depois de uma música qualquer, que fez Mother, do Danzig, tocar numa madrugada aleatória, que fez uma banda desconhecida virar parte da trilha da minha vida sem eu escolher nada disso.
Hoje eu escolho quase tudo que ouço. Naquela época, por algumas horas de madrugada, alguém do outro lado da cidade escolhia por mim. Sinto falta disso, mesmo sem saber explicar direito por quê.